Oração





Que essa Luz me invada

E resplandeça de brancos lírios

Que Te glorifiques em mim,

E que eu não esqueça

Que mais não sou

Do que pó do caminho

Que porém percorro,
Caminhando
E que um dia findará
Sem que eu saiba coisa alguma.
Que eu seja como o pão
Amassado, toldado, cozido
Mas que mate a fome das gentes
Que toda a revolta que em mim
Se erga
Seja sabedoria e nunca soberba.
Que o meu pranto e toda a Dor
Seja como o fogo purificador
Do meu crescimento interior
E Tu sempre me recordes
Isso.
E que apesar de todos os meus conflitos
Enquanto mulher,
Eu consiga semear alegria e Paz.


Célia Moura – 29 Março/2013


CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR

Quando nós olhamos para a Cruz,/
Quando a Cruz olha para nós

1. A Igreja Una e Santa, no coração Ungida e no corpo Abraçada pelo Amor de Deus, religiosamente escuta e carinhosamente recita nesta Sexta-Feira Santa a Paixão do seu Senhor. Que o mesmo é dizer que religiosamente abraça e carinhosamente beija a Cruz do seu Senhor.
2. O coração deste Dia é, na verdade, caríssimos irmãos, a Cruz do Senhor e o Senhor da Cruz. Adoramos o Senhor da Cruz e nele fixamos o nosso olhar atónito e enternecido. Bem sabemos, na verdade, que é «nas suas chagas que está a cura para nós», de acordo com o fundo dizer registado no chamado quarto canto do Servo do Senhor, de Isaías 53,5, e na Primeira Carta de S. Pedro 2,24. Mas não é o Servo do Senhor, de Isaías, que o diz, nem é o Servo Jesus que o diz. A profecia atingiu o seu cume. O profeta já não profetiza, mas é por nós profetizado. Na verdade, olhando atentamente e ternamente aquele corpo chagado, somos nós que reconhecemos e dizemos que «naquelas chagas está a cura para nós». Sim, naquelas chagas, caríssimos irmãos, fica bem visível aos nossos olhos, aos olhos do nosso «coração que vê», o nosso ódio, a nossa raiva, a nossa malvadez, a nossa violência. Sim, meus caríssimos irmãos, este é o diagnóstico, que ao olhar, com amor, o Senhor da Cruz, serenamente fazemos de nós mesmos. Sim, meus caríssimos irmãos, aquelas chagas abertas revelam as doenças de que padecemos: ódios, invejas, ciúmes, ambições, malvadez, violência. Mas aquelas chagas abertas revelam-nos ainda o remédio que pode curar as nossas doenças acabadas de diagnosticar. É o amor maior e excessivo, subversivo, desfeito em perdão, com que aquele coração aberto e chagado e aqueles braços abertos e chagados, nos envolvem e nos absolvem, absorvendo e dissolvendo, inutilizando o nosso pecado. Por isso, caríssimos irmãos, escreve bem fundo S. Lucas quando filma toda a multidão a passar diante do Senhor da Cruz, batendo no peito, isto é, reconhecendo a sua doença, o seu pecado (Lucas 23,48).

3. Coloco, irmãos, diante de vós, mas peço que graveis no vosso coração, o extraordinário resumo que um dia um velhinho simples e iluminado pelo Espírito fez da Palavra da Cruz: «Senhor Padre, disse o velhinho, hoje aprendi duas coisas! Sabe, no Domingo de Páscoa, a Cruz vai a minha casa, no compasso; e acrescentou com os olhos a brilhar: então, quando eu olhar para a Cruz, vou ver lá os meus pecados; e quando a Cruz olhar para mim, vou ver lá o abraço carinhoso de Deus, que me ama e perdoa os meus pecados!».

4. O compasso da Páscoa não é aquele instrumento escolar, que serve para traçar circunferências. Não é tão-pouco o compasso musical, o ritmo que se imprime à música. É a «comparticipação nos sofrimentos de Cristo», o cum passo Christo, sofrer com, sofrer com Cristo, «para ver se alcanço a ressurreição de entre os mortos», como diz S. Paulo na Carta aos Filipenses (3,10-11). E o abraço carinhoso de Deus, de que fala o velhinho, é o palio, o pallium latino, que nos protege sempre. Usamo-lo nas procissões, mas também nas horas mais dramáticas, quando precisamos de «cuidados paliativos»… Foi a este «pálio», a este manto, a este abraço carinhoso, a este humano e divino agasalho, que a medicina foi buscar o «paliativo». Saiba-o ou não. Porque não o devia nunca esquecer. Com quanto carinho devemos saber envolver os sofredores, os pobres, as viúvas e os órfãos, os deserdados, os perseguidos e os moribundos…

5. Adorar a Cruz do Senhor, o Senhor da Cruz, é o afazer mais belo e intenso deste Dia de Sexta-Feira Santa. Assim têm feito os cristãos desde o princípio. Mas a paganização romana dos lugares santos, nos séculos II e III, afastou os cristãos da Cruz do Senhor. É, portanto, preciso lembrar aquele dia 13 de Setembro do longínquo ano 326, em que Santa Helena encontrou a Cruz do Senhor, procedendo de imediato à construção da Basílica da Anástasis, que foi dedicada no dia 13 de Setembro do ano 335, sendo a Cruz do Senhor nela exposta à adoração dos fiéis no dia seguinte, 14 de Setembro de 335. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Cruz do Senhor era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro [hoje Dia da Exaltação da Santa Cruz] e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as oito horas da manhã até ao meio-dia, todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

6. Irmãos caríssimos, bem sabemos as perseguições e os sofrimentos por que passam hoje os cristãos, nossos irmãos, da Terra Santa e das Igrejas do Médio Oriente. Mas bem sabemos também do seu testemunho heróico. Verdadeiramente, eles abraçam com amor a Cruz do Senhor, e o Senhor da Cruz abraça-os a eles com amor. É lá que passa o verdadeiro Compasso. Sofrer com Cristo, para com Ele chegar à glória da Ressurreição.

7. A Igreja Una e Santa, espalhada pelo mundo inteiro, portanto também a Igreja da nossa Diocese de Lamego, é em cada Sexta-Feira Santa convidada a ajudar esses nossos irmãos perseguidos e a contribuir para a manutenção dos Lugares Santos da Terra Santa, berço da nossa fé. Enquanto adoramos a Cruz do Senhor, deixemos a nossa oferta aos pés da Cruz, sinal da nossa caridade e do nosso amor pelos Lugares Santos.

Que o Senhor da Cruz faça resplandecer sobre nós o seu olhar bondoso e maternal. Amen.

António Couto
·


Este é o Dia que o Senhor fez! Aleluia!



1. «Esta é a Obra do Senhor!», assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de Revelação) Jesus na Cruz, deci­frando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda‑se a meto­nímia de Mateus 27,46 e Marcos 15,34, citando apenas o início). Par­ticularmente ao longo da Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs (proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja‑se aqui demoradamente Romanos 3,24‑25), tomando posse da sua Igreja‑Esposa para o efeito redimida na «água e no sangue» (João 19,34; Efésios 5,25‑27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus com «voz forte» (!) no grande texto de João 7,37-39. Para aqui apontava também a «caminhada» quaresmal, a qual – vê‑se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido. É este «o Mistério Grande» (Efésios 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Romanos 16,25‑26; 1 Coríntios 2,7‑10; Efésios 3,3‑11; Colossenses 1,26‑27). E só Deus pode dar tanto a conhecer (veja‑se agora o texto espantoso de Efésios 3,14‑21). É quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos (com a Chará, a alegria grande da Páscoa), pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Salmo 118,24) e em que o Senhor nos fez! É o «Primeiro Dia» (Mateus 28,1; Marcos 16,2 e 9; Lucas 24,1; João 20,1 e 19; Actos 20,7; 1 Coríntios 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor, o Dia Grande» (Actos 2,20; Apocalipse 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico todo, o Ano da Graça do Senhor, em que a Igreja‑Esposa, redi­mida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do al­tar, do ambão, do baptistério: tudo «sinais» do túmulo aberto do Senhor Ressuscitado, donde emerge continuamente a mensagem da Ressurreição. Aleluia!



2. O Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor oferece-nos o grande texto de João 20,1-10, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito grande (Marcos 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mateus 28,2), impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio: está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Marcos 16,4), dois homens com vestes fulgurantes (Lucas 24,4), as faixas de linho no chão e o sudário enrolado noutro lugar (João 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram uma presença nova que somos convidados a descobrir.



3. O texto imenso de João 20,1-10 coloca-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou ainda não:



4. A Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê, com um olhar normal (verbo grego blépô) que até causa aflição a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos, particípio perfeito passivo de aírô. De facto, até dói e aflige que se veja o inefável como quem vê uma coisa qualquer, cegos como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por Deus reclama e estabelece contraponto com a pedra por algum tempo retirada (aoristo de aírô) pelos homens do túmulo de Lázaro (João 11,39 e 41). Cega pelos seus preconceitos, a Madalena falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa notícia: «Retiraram (aoristo de aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho não estranha esta cegueira da Madalena. É que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (João 20,1), e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreensão e na cegueira, e nada entende ou dá bom resultado. A oposição luz – trevas atravessa de lés a lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (João 1,9). Sem esta Luz que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na cegueira, na dor, no fracasso, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, que somos levados a constatar como Nicodemos, que anda de noite (João 3,2) e nada entende, como os discípulos, que nada pescam de noite (João 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (João 6,17-18), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no meio dos guardas (João 18,17-18).



5. A notícia levada pela Madalena põe em movimento Simão Pedro e o «discípulo amado». Anote‑se a progressão e repare-se atentamente nos verbos utilizados: 1) Maria Madale­na vai ao túmulo, e vê (blépô) a pedra (da morte) retirada. 2) O outro discípulo, «o discípulo amado», corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e vê (blépô) as faixas de linho no chão. 3) Pedro, que corria juntamente com «o discípulo amado», mas SEGUINDO-O e chegando depois… Na verdade, ainda em João 18,15, os dois SEGUIAM Jesus, que é a correcta postura do discípulo. Pedro, porém, não SEGUIU Jesus até ao fim: ficou ali estacionado no pátio do Sumo Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (João 18,18). Pedro, portanto, não fez o curso ou o percurso de discípulo de Jesus até ao fim! Deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. É por isso que agora tem de SEGUIR alguém que tenha SEGUIDO Jesus até ao fim. É por isso, e só por isso – nada tem a ver com idades (Pedro mais idoso, o «discípulo amado» mais jovem!) – que Pedro tem agora de SEGUIR o «discípulo amado», chegando naturalmente ao túmulo atrás dele. Note-se ainda que, não obstante um ir à frente e o outro atrás, correm os dois juntos. É aquilo que ainda hoje vemos na catequese e na mistagogia cristãs: corremos sempre juntos, mas alguém vai à frente, para ensinar o caminho aos outros! Belíssima comunhão em corrida!



6. Pedro, que corria juntamente com o «discípulo amado», mas SEGUINDO-O, entra no túmulo que o «discípulo amado» cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele é o grande sinalizador de Jesus: veja-se João 13,24 e 21,7), e vê (theôréô: um ver que dá que pensar e que abre para a fé: cf. João 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no chão e o sudário que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal» do Corpo ausente do Ressuscitado! Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada tão em ordem! Por isso, Pedro vê com o olhar de quem fica a pensar no que se terá passado… Talvez seja coisa de Deus… Com a indica­ção preciosa de que o véu foi cuidadosamente retirado do seu Rosto, a Revelação convida agora a contemplar o Rosto divino no Rosto humano do Ressuscitado: vendo‑o a Ele, vê‑se o Pai (cf. João 14,9).



7. «O discípulo amado» entrou e viu (ideîn, de ideia e identidade) e acreditou (v. . É o olhar de quem vê o inefável, verdadeiro clímax do relato: anote‑se a passagem do verbo ver do presente para o aoristo, e de fora para dentro: «o discípulo amado» viu na história a identidade dos «sinais»: toda a Economia divina realizada! O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamenteilumina e esconde.



8. Os primeiros cristãos rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-135) soterrou e paganizou, estabelecendo ali cultos pagãos (no lugar da Ressurreição, colocou a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore), com o intuito de desviar deles os cristãos. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, que aí terá descoberto a Cruz do Senhor, mandou demolir as construções pagãs, e vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela Anástasis, grandioso mausoléu que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota, e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a veneração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. Esta comemoração ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Eráclio derrotou os Persas, e as relíquias da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusalém. Esta bela Basílica Constantiniana foi danificada por diversas invasões e ocupações. A actual Basílica do Santo Sepulcro, que os ortodoxos e os árabes chamam Anástasis e Qiyama, termos que em grego e árabe significam «Ressurreição», é fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui estão guardadas as mais fundas raízes da nossa vida cristã, hoje quase uma espécie de «condomínio» de três Igrejas cristãs, infelizmente separadas entre si: a igreja greco-ortodoxa, a romano-católica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum fé pascal, mas também o drama da separação.



9. Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Actos dos Apóstolos (10,34-43), os Apóstolos dão testemunho do que viram. Foi‑lhes dado ver exactamente para dar teste­munho. Viram e testemunham o Baptismo de Jesus, a execução da sua missão filial baptismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei­ção Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que também os Profetas [= Antigo Testamento] dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A base profética é imponente: Jeremias 31,34; Isaías 33,24; 53,5‑6; 61,1; Ezequiel 34,16; Daniel 9,24. Ver depois João 20,19‑23. «As Escrituras» (então o Antigo Testamento) apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para «as Escrituras». Cumplicidade entre o Ressuscitado e «as Escrituras». Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as «Escrituras». Não está depois delas ou no fim delas. Está no meio delas, fá-las transbordar, transborda delas.



10. O Capítulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a «vida nova» em Cristo, que é vida baptismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coi­sas do alto» (v. 1), «pensai as coisas do alto» (v. 2), exorta­ção que ecoa ainda no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao alto!», a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Espírito: «O nosso coração está em Deus!», enquanto ecoa ainda em cada coração habitado pelo Espírito o «Glória a Deus nas alturas!».



Páscoa é Páscoa. Simplesmente.

Sem I.V.A. nem adjectivo pascal.

Páscoa é lua cheia, inconsútil, inteira,
sementeira de luz na nossa eira.

Deixa-a viver, crescer, iluminar.
Afaga-lhe a voz e o olhar.

Não lhe metas pás, não lhe deites cal.
Não lhe faças mal.
Não são notas enlatadas, brasas apagadas.
É música nova, lume vivo e integral.

Não é paragem, mas passagem,
aragem a ferver e a gravar em ponto Cruz
a mensagem que arde no coração dos dois de Emaús.
A Páscoa é Jesus.
António Couto
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Quando nós olhamos para a Cruz,/

Quando a Cruz olha para nós



1. A Igreja Una e Santa, no coração Ungida e no corpo Abraçada pelo Amor de Deus, religiosamente escuta e carinhosamente recita nesta Sexta-Feira Santa a Paixão do seu Senhor. Que o mesmo é dizer que religiosamente abraça e carinhosamente beija a Cruz do seu Senhor.

2. O coração deste Dia é, na verdade, caríssimos irmãos, a Cruz do Senhor e o Senhor da Cruz. Adoramos o Senhor da Cruz e nele fixamos o nosso olhar atónito e enternecido. Bem sabemos, na verdade, que é «nas suas chagas que está a cura para nós», de acordo com o fundo dizer registado no chamado quarto canto do Servo do Senhor, de Isaías 53,5, e na Primeira Carta de S. Pedro 2,24. Mas não é o Servo do Senhor, de Isaías, que o diz, nem é o Servo Jesus que o diz. A profecia atingiu o seu cume. O profeta já não profetiza, mas é por nós profetizado. Na verdade, olhando atentamente e ternamente aquele corpo chagado, somos nós que reconhecemos e dizemos que «naquelas chagas está a cura para nós». Sim, naquelas chagas, caríssimos irmãos, fica bem visível aos nossos olhos, aos olhos do nosso «coração que vê», o nosso ódio, a nossa raiva, a nossa malvadez, a nossa violência. Sim, meus caríssimos irmãos, este é o diagnóstico, que ao olhar, com amor, o Senhor da Cruz, serenamente fazemos de nós mesmos. Sim, meus caríssimos irmãos, aquelas chagas abertas revelam as doenças de que padecemos: ódios, invejas, ciúmes, ambições, malvadez, violência. Mas aquelas chagas abertas revelam-nos ainda o remédio que pode curar as nossas doenças acabadas de diagnosticar. É o amor maior e excessivo, subversivo, desfeito em perdão, com que aquele coração aberto e chagado e aqueles braços abertos e chagados, nos envolvem e nos absolvem, absorvendo e dissolvendo, inutilizando o nosso pecado. Por isso, caríssimos irmãos, escreve bem fundo S. Lucas quando filma toda a multidão a passar diante do Senhor da Cruz, batendo no peito, isto é, reconhecendo a sua doença, o seu pecado (Lucas 23,48).



3. Coloco, irmãos, diante de vós, mas peço que graveis no vosso coração, o extraordinário resumo que um dia um velhinho simples e iluminado pelo Espírito fez da Palavra da Cruz: «Senhor Padre, disse o velhinho, hoje aprendi duas coisas! Sabe, no Domingo de Páscoa, a Cruz vai a minha casa, no compasso; e acrescentou com os olhos a brilhar: então, quando eu olhar para a Cruz, vou ver lá os meus pecados; e quando a Cruz olhar para mim, vou ver lá o abraço carinhoso de Deus, que me ama e perdoa os meus pecados!».



4. O compasso da Páscoa não é aquele instrumento escolar, que serve para traçar circunferências. Não é tão-pouco o compasso musical, o ritmo que se imprime à música. É a «comparticipação nos sofrimentos de Cristo», o cum passo Christo, sofrer com, sofrer com Cristo, «para ver se alcanço a ressurreição de entre os mortos», como diz S. Paulo na Carta aos Filipenses (3,10-11). E o abraço carinhoso de Deus, de que fala o velhinho, é o palio, o pallium latino, que nos protege sempre. Usamo-lo nas procissões, mas também nas horas mais dramáticas, quando precisamos de «cuidados paliativos»… Foi a este «pálio», a este manto, a este abraço carinhoso, a este humano e divino agasalho, que a medicina foi buscar o «paliativo». Saiba-o ou não. Porque não o devia nunca esquecer. Com quanto carinho devemos saber envolver os sofredores, os pobres, as viúvas e os órfãos, os deserdados, os perseguidos e os moribundos…


5. Adorar a Cruz do Senhor, o Senhor da Cruz, é o afazer mais belo e intenso deste Dia de Sexta-Feira Santa. Assim têm feito os cristãos desde o princípio. Mas a paganização romana dos lugares santos, nos séculos II e III, afastou os cristãos da Cruz do Senhor. É, portanto, preciso lembrar aquele dia 13 de Setembro do longínquo ano 326, em que Santa Helena encontrou a Cruz do Senhor, procedendo de imediato à construção da Basílica da Anástasis, que foi dedicada no dia 13 de Setembro do ano 335, sendo a Cruz do Senhor nela exposta à adoração dos fiéis no dia seguinte, 14 de Setembro de 335. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Cruz do Senhor era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro [hoje Dia da Exaltação da Santa Cruz] e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as oito horas da manhã até ao meio-dia, todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

6. Irmãos caríssimos, bem sabemos as perseguições e os sofrimentos por que passam hoje os cristãos, nossos irmãos, da Terra Santa e das Igrejas do Médio Oriente. Mas bem sabemos também do seu testemunho heróico. Verdadeiramente, eles abraçam com amor a Cruz do Senhor, e o Senhor da Cruz abraça-os a eles com amor. É lá que passa o verdadeiro Compasso. Sofrer com Cristo, para com Ele chegar à glória da Ressurreição.

7. A Igreja Una e Santa, espalhada pelo mundo inteiro, portanto também a Igreja da nossa Diocese de Lamego, é em cada Sexta-Feira Santa convidada a ajudar esses nossos irmãos perseguidos e a contribuir para a manutenção dos Lugares Santos da Terra Santa, berço da nossa fé. Enquanto adoramos a Cruz do Senhor, deixemos a nossa oferta aos pés da Cruz, sinal da nossa caridade e do nosso amor pelos Lugares Santos.

Que o Senhor da Cruz faça resplandecer sobre nós o seu olhar bondoso e maternal. Amen.

António Couto



EXALANDO O PERFUME DE CRISTO, SEM NUNCA PERDER O “CHEIRO DAS OVELHAS”



Exalando o bom perfume de Cristo (2 Coríntios 2,14-15), sem nunca perder o «cheiro das ovelhas» (Papa Francisco I)

1. «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me UNGIU,/ a EVANGELIZAR os pobres me ENVIOU,/ a ANUNCIAR aos prisioneiros a libertação e aos cegos a vista,/ […] a ANUNCIAR o ano da graça do Senhor» (Lucas 4,18-19; cf. Isaías 61,1-2). Esta é a lição Hoje duas vezes ouvida, primeiro em Isaías, depois no Evangelho de S. Lucas. Em Isaías, o profeta diz esta lição de esperança aos pobres regressados do Exílio da Babilónia a uma Jerusalém arruinada. No Evangelho de S. Lucas, Jesus assume sobre si esta missão de esperança. Levantou-se, recebeu o rolo, encontrou a passagem de Isaías, leu, entregou o rolo, sentou-se. Diz-nos o narrador que estavam fixos nele os olhos de todos (Lucas 4,20). E Jesus fez então a mais breve homilia conhecida: «HOJE foi cumprida esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21).



2. Comenta assim o nosso Papa Francisco: «Jesus “pesca” na Escritura como na vida. Assim como encontra a passagem certa na Escritura, também na vida quotidiana o seu olhar encontra sempre o necessitado, os seus ouvidos ouvem a voz de quem chama por ele, o seu zelo apostólico vai até ao ponto de sentir, com a orla do seu manto, as dores do povo a quem foi enviado (Mateus 9,20-22; Marcos 5,25-34; Lucas 8,43-48). Este fervor missionário de Jesus serve-nos sempre de consolo e impulso para o nosso trabalho pastoral». E continua o Papa Francisco: «Ano após ano, os que fomos UNGIDOS, SELADOS e ENVIADOS, voltamos a esta cena para renovar esta UNÇÃO que nos leva a tomar consciência das fragilidades das pessoas, nos impele a sair de nós mesmos, e nos envia a todas as periferias existenciais para sarar, libertar, perdoar e anunciar a Boa Nova».



3. Continuo a seguir de perto palavras do Papa Francisco: A nossa identidade sacerdotal assenta na UNÇÃO (chrísma) recebida de Deus e no SELO (sphragís) com que fomos marcados por Deus, em consonância com a palavra de S. Paulo: «Foi Deus que nos UNGIU, e que também nos marcou com o seu SELO» (2 Coríntios 1,21-22). Esta nossa identidade sacerdotal, por Deus UNGIDA e SELADA, não é negociável. Mas tão-pouco é para conservar enlatada ou enterrada ou simplesmente poupada, ao abrigo de qualquer risco, como fez no Evangelho o homem do talento dado por Deus (Mateus 25,18.24-27). Exactamente o contrário: a Igreja vela pela integridade do Dom, para o poder dar e comunicar inteiro a todas as pessoas de geração em geração. A nossa identidade sacerdotal não somos nós centrados em nós e voltados para nós; é, antes, uma identidade de amor que nos empurra para fora de nós, para a periferia, identidade UNGIDA, à maneira de Cristo, o Ungido, identidade ENVIADA, identidade em MISSÃO.



4. O SELO é a assinatura de Deus, posta nas obras do Filho (João 6,27), e também no nosso coração sacerdotal e nas nossas mãos sacerdotais que acariciam e abençoam em seu Nome. O certificado de garantia do nosso coração sacerdotal que tudo deve pensar, e das nossas mãos sacerdotais que tudo devem fazer, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, são os corações UNGIDOS e SELADOS dos filhos e irmãos que Deus nos confiou, e a quem fomos enviados em missão para os UNGIR e marcar com o SELO de Deus. Diz bem São Paulo aos Coríntios: «Vós sois o SELO do meu apostolado no Senhor» (1 Coríntios 9,2).

5. UNGIDOS para EVANGELIZAR. Neste sentido, o Papa Paulo VI traçou bem e fundo o perfil Evangelizador da Igreja: «EVANGELIZAR é a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda. A Igreja existe para EVANGELIZAR» (Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, n.º 14). EVANGELIZAR supõe zelo apostólico, lembra-nos o Papa Francisco, numa bela e intensa exortação proferida, sem papel, numa das Congregações Gerais havidas entre os Cardeais no pré-Conclave. No final da sessão, o Cardeal Jaime Ortega, Arcebispo de Havana, perguntou ao então Cardeal Bergoglio se tinha a sua intervenção escrita, ao que ele respondeu que não. Todavia, durante a noite, pôs numa folha aquilo de que se lembrava, e, na manhã seguinte, entregou-a com toda a gentileza ao Cardeal Jaime Ortega. Perguntou-lhe este se a podia divulgar, ao que o Cardeal Bergoglio respondeu que sim. Voltou a perguntar-lhe já depois da sua eleição como Papa, e ele voltou a responder afirmativamente. Grande parte do que agora direi é tirado dessa forte mensagem que anda à volta da Evangelização. O manuscrito foi publicado ontem, dia 27, no Avvenire.

6. Evangelizar supõe, na Igreja, a ousadia de esta sair de si mesma. A Igreja é chamada a sair de si mesma em direcção às periferias, não apenas geográficas, mas também existenciais: as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e desafeição religiosa, do pensamento, de toda a espécie de miséria. Quando a Igreja não sai de si mesma para evangelizar, dobra-se sobre si mesma, e adoece à maneira da mulher curvada do Evangelho (Lucas 13,10-17). Os males que, com o andar do tempo, afectam as instituições religiosas têm a sua raiz no centrar-se sobre si mesmas, uma espécie de narcisismo teológico e vital. O Livro do Apocalipse põe Jesus a dizer assim: «Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo» (Apocalipse 3,20). É claro que Jesus bate à porta do lado de fora para entrar. Sou, todavia, levado a pensar nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro, para que o deixemos sair. O que acontece é que, quando a Igreja tem em si mesma a sua referência, quer ter Jesus dentro de si, e não o deixa sair.

7. Quando a Igreja se vê a si mesma como auto-referência, pensa, sem sequer disso se aperceber, que tem luz própria. Deixa de ser o mysterium lunae, e dá lugar a esse mal tão grave que é a mundanidade espiritual, que é, como refere Henri de Lubac na Méditation sur l’Église (p. 327), o pior mal que pode sobrevir à Igreja. Chama-se a isso viver para «receber glória uns dos outros» (João 5,44). Simplificando, podemos ver duas imagens de Igreja: a Igreja evangelizadora, que sai de si, que é a Igreja da Dei Verbum, que ouve religiosamente e proclama confiadamente a Palavra de Deus (DV, n.º 1), e a Igreja mundana, que vive em si, de si e para si. Estas anotações devem dar luz às possíveis mudanças e reformas a levar por diante para a salvação das almas.



Mensagem de Páscoa do Papa Francisco

Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, boa Páscoa!



Que grande alegria é para mim poder dar-vos este anúncio: Cristo ressuscitou! Queria que chegasse a cada casa, a cada família e, especialmente onde há mais sofrimento, aos hospitais, às prisões...



Sobretudo queria que chegasse a todos os corações, porque é lá que Deus quer semear esta Boa Nova: Jesus ressuscitou, uma esperança despertou para ti, já não estás sob o domínio do pecado, do mal! Venceu o amor, venceu a misericórdia!



Também nós, como as mulheres discípulas de Jesus que foram ao sepulcro e o encontraram vazio, nos podemos interrogar que sentido tenha este acontecimento (cf. Lc 24, 4). Que significa o fato de Jesus ter ressuscitado? Significa que o amor de Deus é mais forte que o mal e a própria morte; significa que o amor de Deus pode transformar a nossa vida, fazer florir aquelas parcelas de deserto que ainda existem no nosso coração.



Este mesmo amor pelo qual o Filho de Deus Se fez homem e prosseguiu até ao extremo no caminho da humildade e do dom de Si mesmo, até a morada dos mortos, ao abismo da separação de Deus, este mesmo amor misericordioso inundou de luz o corpo morto de Jesus e transfigurou-o, o fez passar à vida eterna. Jesus não voltou à vida que tinha antes, à vida terrena, mas entrou na vida gloriosa de Deus e o fez com a nossa humanidade, abrindo-nos um futuro de esperança.



Eis o que é a Páscoa: é o êxodo, a passagem do homem da escravidão do pecado, do mal, à liberdade do amor, do bem. Porque Deus é vida, somente vida, e a sua glória é o homem vivo (cf. Ireneu, Adversus haereses, 4, 20, 5-7).



Amados irmãos e irmãs, Cristo morreu e ressuscitou de uma vez para sempre e para todos, mas a força da Ressurreição, esta passagem da escravidão do mal à liberdade do bem, deve realizar-se em todos os tempos, nos espaços concretos da nossa existência, na nossa vida de cada dia. Quantos desertos tem o ser humano de atravessar ainda hoje! Sobretudo o deserto que existe dentro dele, quando falta o amor a Deus e ao próximo, quando falta a consciência de ser guardião de tudo o que o Criador nos deu e continua a dar. Mas a misericórdia de Deus pode fazer florir mesmo a terra mais árida, pode devolver a vida aos ossos ressequidos (cf. Ez 37, 1-14).



Eis, portanto, o convite que dirijo a todos: acolhamos a graça da Ressurreição de Cristo! Deixemo-nos renovar pela misericórdia de Deus, deixemo-nos amar por Jesus, deixemos que a força do seu amor transforme também a nossa vida, tornando-nos instrumentos desta misericórdia, canais através dos quais Deus possa irrigar a terra, guardar a criação inteira e fazer florir a justiça e a paz.



E assim, a Jesus ressuscitado que transforma a morte em vida, peçamos para mudar o ódio em amor, a vingança em perdão, a guerra em paz. Sim, Cristo é a nossa paz e, por seu intermédio, imploramos a paz para o mundo inteiro.



Paz para o Médio Oriente, especialmente entre israelitas e palestinos, que sentem dificuldade em encontrar a estrada da concórdia, a fim de que retomem, com coragem e disponibilidade, as negociações para pôr termo a um conflito que já dura há demasiado tempo. Paz no Iraque, para que cesse definitivamente toda a violência, e sobretudo para a amada Síria, para a sua população vítima do conflito e para os numerosos refugiados, que esperam ajuda e conforto. Já foi derramado tanto sangue… Quantos sofrimentos deverão ainda atravessar antes de se conseguir encontrar uma solução política para a crise?



Paz para a África, cenário ainda de sangrentos conflitos: no Mali, para que reencontre unidade e estabilidade; e na Nigéria, onde infelizmente não cessam os atentados, que ameaçam gravemente a vida de tantos inocentes, e onde não poucas pessoas, incluindo crianças, são mantidas como reféns por grupos terroristas. Paz no leste da República Democrática do Congo e na República Centro-Africana, onde muitos se veem forçados a deixar as suas casas e vivem ainda no medo.



Paz para a Ásia, sobretudo na península coreana, para que sejam superadas as divergências e amadureça um renovado espírito de reconciliação.



Paz para o mundo inteiro, ainda tão dividido pela ganância de quem procura lucros fáceis, ferido pelo egoísmo que ameaça a vida humana e a família – um egoísmo que faz continuar o tráfico de pessoas, a escravatura mais extensa neste século vinte e um. Paz para todo o mundo dilacerado pela violência ligada ao narcotráfico e por uma iníqua exploração dos recursos naturais. Paz para esta nossa Terra! Jesus ressuscitado leve conforto a quem é vítima das calamidades naturais e nos torne guardiões responsáveis da criação.



Amados irmãos e irmãs, originários de Roma ou de qualquer parte do mundo, a todos vós que me ouvis, dirijo este convite do Salmo 117: «Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque é eterno o seu amor. Diga a casa de Israel: É eterno o seu amor» (vv. 1-2).